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Ageless e Proud of Aging: duas tribos opostas

A vaidade é parte da essência humana. Desde sempre, as pessoas buscam melhorar a aparência. Seja por um desejo de conquista, necessidade profissional, aumentar a autoestima ou, pura e simplesmente, como exercício de poder.

Durante milênios a vaidade esteve pouco ligada à idade. Estima-se que a expectativa de vida dos nossos antepassados, lá na época das cavernas, fosse de 30 anos. Passaram-se milênios e pouca coisa mudou. Em 1900 a expectativa de vida, no planeta, era de 32 anos. Porém, de lá para cá ocorreu um milagre. Em 1950, o mundo esperava viver 48 anos. E no ano 2000, atingimos 73 anos. Observe que isso é a média do planeta. No mesmo balaio temos sociedades ricas, onde se vive bem mais do que 80 anos, e sociedades muito pobres, ainda presas a problemas básicos de alimentação e saneamento que os condenam a viver poucas décadas

À medida em que as pessoas vivem mais, tornam-se muito mais evidentes as marcas e o peso da idade. A sociedade como um todo, e as mulheres em particular, foram se tornando particularmente sensíveis aos problemas do envelhecimento, surgindo daí uma imensa máquina de manutenção da juventude que envolve cremes, maquiagens, protetores, tinturas, condicionadores e rejuvenescedores, além dos spas, botox, cirurgias plásticas, implantes e por ai vai. A indústria de cuidados pessoais gira, sozinha, U$ 504 bilhões ao ano. As cirurgias estéticas geram mais U$ 87 bilhões de faturamento no mundo. Vai somando tudo, não é dificil estimar que a vaidade humana alimenta uma indústria global de U$ 1 trilhão

A busca pela eterna juventude tornou-se uma febre mundial, alavancada pelo enriquecimento da classe média, outro fenômeno do século 20. Quanto maior a renda, mais dinheiro sobra no bolso para consumo discricionário. A popularização do cinema e da TV foi outro estímulo à indústria da beleza. As pessoas se espelham nos seus ídolos e tendem a almejar suas vidas, algo que os marqueteiros batizaram de consumo aspiracional

A busca pela eterna juventude atinge seu ápice no grupo dos Ageless, pessoas que se recusam a envelhecer. São consumidores que aliam algumas práticas saudáveis de vida com enorme investimento nos cuidados pessoais. O objetivo é não apenas aparecer parecer jovem o maior tempo possivel mas também ser saudável pelo maior tempo possivel. A atividade esportiva é intensa, com rotinas rígidas. A alimentação está conectada com a prática esportiva, regada a suplementos alimentares de vários tipos. Os cuidados com a saúde incluem não apenas evitar sol em excesso e piscina como também usar de procedimentos estéticos e cirurgia plástica com bastante liberalidade. E se mostrar jovem, feliz e ativo. Esse estilo de vida modela todo o padrão de consumo da pessoa, determinando onde ela passa as férias, que tipo de roupa usa, que carro gosta, que entretenimento consome. Viver assim é caro mas é o sonho de consumo de muita gente.

Recentemente surgiu um grupo com uma visão completamente diferente do envelhecimento. Esse grupo não tem um nome certo ainda mas alguns se referem a ele como os Proud of Aging. Pessoas que, além de não quererem esconder a idade, tem orgulho de carregar no corpo e no rosto as marcas de todas as experiências vividas. O corpo passa a ser a testemunha explícita de uma vida longa e real, com seus prazeres e sofrimentos, angústias e alegrias, altos e baixos

Também para estas pessoas, o envelhecimento precisa ser saudável. Porém, elas aplicam um conceito mais completo de vida saudável, incluindo aspectos como relação com a natureza e equilíbrio emocional. Aqueles famosos 9 pilares das Blue Zones são seguidos com determinação:

·         Manter-se em movimento

·         Boas escolhas alimentares

·         Regra dos 80% na alimentação

·         Respeitar a velhice

·         Manter bons vínculos com amigos e familiares

·         Diminuir o ritmo e evitar o stress

·         Espiritualidade

·         Viver em comunidade

·         Ter um propósito ou sentido de vida

Para os proud of aging, as preocupações com a aparência são muito menores. Não que eles queiram parecer feios, mas todo aquele arsenal de recursos para estender a aparência juvenil é deixado de lado. Os cabelos permanecem brancos, as rugas não são retiradas por cirurgia plásticas, os procedimentos estéticos são desprezados, a cosmética rejuvenescedora fica ausente. Não importa se os cabelos caíram ou os seios não tem mais aquela rigidez. Você é o resultado da vida que você viveu. E é disso que você se orgulha

Assim no caso dos ageless, a maneira de enxergar a vida dos Proud of Aging define seu padrão de consumo como um todo. Mais uma vez, este estilo de vida influenciará suas decisões sobre férias, vestimentas, cultura, entretenimento, relacionamentos e tudo mais

Duas formas bastante diferentes de enxergar a velhice. De um lado, uma extensão artificial da juventude que para alguns parece futil mas que atrai um número incrivelmente elevado de pessoas em todo o mundo. De outro, uma aceitação pacífica do envelhecimento natural, desenhando uma nova cultura de encarar a idade, que vem ganhando corpo junto a influenciadores e formadores de opinião.

Fabio Nogueira
Vice-Presidente de Longevidade da FBM